O Brasil, que possui uma matriz elétrica com cerca de 90% de fontes renováveis, enfrenta um desafio aparentemente paradoxal: para evitar sobrecarga no sistema elétrico, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem ativado diariamente usinas termelétricas, mais caras e poluentes, além de cortar a geração eólica e solar em momentos de excesso de energia. Essa prática, conhecida como curtailment, tem ocorrido rotineiramente em 2025, resultando em prejuízos acumulados de R$ 5 bilhões para o setor eólico desde 2023 e R$ 1,2 bilhão para usinas solares centralizadas até setembro deste ano.
Crescimento Descompassado e Sobrecarga do Sistema
O principal motivo para esse desequilíbrio é o crescimento acelerado das energias renováveis, especialmente micro e minigeração distribuída, que já representa 18,1% da capacidade instalada e deve crescer para 24,2% até 2029. Contudo, a infraestrutura de transmissão e o sistema de consumo não têm acompanhado essa expansão. O Nordeste, região com grande concentração de parques eólicos e solares, sofre mais com o fenômeno, que acontece em horários de baixa demanda, como feriados ensolarados, quando a produção supera o consumo e ameaça a estabilidade do Sistema Interligado Nacional.
Ativação das Termelétricas Como Complemento
Para garantir a segurança do fornecimento diante da intermitência das fontes renováveis, o ONS tem acionado termelétricas, que entraram em operação especialmente no primeiro semestre de 2025, com destaque para a UTE GNA II, no Rio de Janeiro, com 1,7 GW de capacidade. Essa geração térmica é essencial para suprir picos de consumo e períodos secos, apesar de elevar custos e emissões. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou recentemente que o país mantém segurança energética, mesmo diante da necessidade do acionamento desses equipamentos, embora episódios como o apagão de outubro de 2025 evidenciem desafios na infraestrutura.
O desafio do Brasil hoje está em ajustar sua logística e rede elétrica para absorver melhor o crescimento das renováveis, visando reduzir desperdícios e a dependência das termelétricas, buscando a sustentabilidade econômica e ambiental do setor energético nacional.
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